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Quando os pobres enterram seus mortos

Menina chora no enterro do pai.

"A culpa das 50 mortes é da irresponsável ocupação desordenada de áreas irregulares, das encostas, por isso eu quero construir muros nas favelas, para impedir a expansão das favelas! Veja aonde estão as mortes. São os mais pobres que morrem, por isso, temos que ser cada vez mais duros na disciplina da ocupação do solo urbano, com aparato da polícia. Já falei com os prefeitos: contem com o Governo do Estado!"

A fala acima é do governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, diante das tragédias provocadas pela chuva em diversas cidades do Estado, mas que teve consequências gravíssimas na cidade do Rio de Janeiro e Niterói. Com mais de 24 horas ininterruptas de chuva, essas duas cidades ficaram intransitáveis, com ruas totalmente alagadas e trânsito parado. As pessoas demoravam horas para chegar em casa (quando conseguiam chegar). No dia seguinte, sob os efeitos e ainda sofrendo com as causas, um pedido oficial foi feito para que não se saísse de casa. Nas ruas, praticamente só água. Era terra de ninguém, caos, 2012.

E no meio de tanta água, fica então evidente, da forma mais triste e descarada, a falta de investimento público e a incompetência de nossos governantes. Primeiramente, essa urbanização incontrolável que acaba com qualquer vestígio natural nas cidades. Tudo é cimento e asfalto, derruba-se árvores, acaba-se até com os mínimos canteiros em nome deste falso progresso (minha implicância com Niemayer vem daí... arte urbana que se nega a dialogar com a natureza, logo no Brasil, não dá, né?). Logo, a água não encontra lugar para escoar. Investimentos para tentar reverter tal situação, que aparece nas simples chuvas do dia-a-dia, não são feitos. E por tais motivos, entre muitos outros, a água vai subindo, entra nas casas, nos carros e se torna a grande vilã destruidora da história (injustamente).

Apesar das chuvas terem causado transtorno na vida de todos, as consequências mais graves ficaram para (como sempre) aqueles que tem menos recursos e condições de superar as perdas. É só olhar lá pra cima, e verá o sofrimento que tantos moradores de favelas estão passando. Favela. Lá, onde o pobre vai morar por falta de opção, pela básica necessidade de se ter um teto; por não ter dinheiro para bancar a lógica monstruosa da especulação imobiliária; por querer estar perto do trabalho; por ter sido jogado para lá tempos atrás pelos governantes em nome do "progresso"; por querer morar na cidade que, em seus sonhos, lhe dará melhor oportunidade de vida. Favela. É lá, onde o descaso se mostra nu no instante em que as humildes casas caem, escorregam na lama da chuva e dessa política nojenta.

Quase 200 mortos, grande parte foram moradores das favelas. As fortes chuvas provocaram deslizamento de terra, fazendo com que diversos barracos fossem destruídos e seus moradores soterrados e mortos. E é nesta situação, de profunda tristeza e sofrimento, que nossos governantes vêm à público colocar a culpa nos pobres. Sim, porque dizer que a culpa é da ocupação desordenada nos morros é culpar diretamente os pobres. Afinal de contas, tal fato existe, mas segue a lógica dessa sociedade louca em que vivemos, que colocou essas pessoas na situação em que se encontram. A educação é precária, a saúde é precária, a condição para se viver às vezes depende mais da sorte e da colaboração das outras pessoas em volta do que de investimentos públicos. Plano de moradia, não há. E, seu governador, se elas pudessem construir suas casa na Vieira Souto, seria a primeira coisa que fariam. Mas elas não dinheiro,nem para construir, nem para comprar casas em estado adequado e legal. É por isso, seu governador, que o crescimento acontece. Por falta de alternativa.

E agora, seu governador, você vem culpar os mortos por suas desgraças e pelo sofrimento de suas famílias? Cadê a política habitacional, que também não as jogue num fim de mundo qualquer, sem condições básicas e eficientes de transporte, para que a existência deles não atrapalhe as belezas do Rio? Cadê a urbanização desses morros? Cadê o emprego, as melhores condições de vida? Ah! Seu excelentíssimo prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, se é pra voltarmos aos anos 50, então voltaremos: cadê a reforma agrária, que não teria provocado o grande êxodo para as cidades de pessoas que buscavam uma melhor qualidade de vida para sua família? Essas pessoas deixam descendentes, outras continuam vindo. O crescimento é previsível há tanto tempo, seu prefeito. O que o senhor fez para mudar essa situação?

E para as propostas de remoção, que alguns disseram tentar mas não conseguir por resistência dos moradores, o que vocês queriam? A favela não é um simples lugar para morar. É um lugar onde pessoas com dificuldades, vindas de diversos cantos do país, cujas vidas são desestruturadas, sem perspectiva de grandes melhoras, se encontram, se ajudam e sobrevivem com o apoio, as alegrias e tristezas compartilhadas. Aquele grupo contrói uma identidade em conjunto, que representa uma referências para se sentirem indivíduos de valor, pertencentes à sociedade. Sim, porque a lógica do todo os exclui, os criminaliza. É claro que eles não vão querer se separar para continuarem na mesma precariedade. Além disso, vão remover para onde? Para longe de seus trabalhos, para cantões com infra-estrutura tão inadequadas quanto? Sim, a resistência vai existir.

Humanidade, seus governadores. Essas pessoas só querem ser reconhecidas como seres humanos de valor, inteligentes, produtivos, dignos. São pobres sim, mas porque essa política mesquinha, corrupta, nojenta e desumana não os deixam ser outra coisa.

Então, por favor, Sérgio Cabral e outros. Olhem no espelho. Lá, encontrarão pessoas mais adequadas para colocarem a culpa do caos dessa semana.

Pai no enterro do filho, morto no desabamento do Morro dos Prazeres

Comentários

Vitor disse…
Terra de ninguém? Onde vc conseguia ver terra? Eu só via água e mais água e mais água.

Se a ocupação é desordenada, é pq faltou ordem. De quem é a responsabilidade pela ordem na ocupação do solo urbano?

O problema não é haver pobres. O problema é haver os ricos, pois por isso os pobres vêm para a cidade, achando que podem um dia, quem sabe...

Talvez a culpa seja da Rede Globo, onipresente com novelas alternando entre os jardins paulistas e o circuito ipanema leblon.

Mas como eu sempre digo nessas situações, achar os culpas não resolve os problemas. O passado já foi uma porcaria. Agora temos que olhar para o futuro!

Do ponto de vista urbano, sempre haverá centralidades e periferias. Sempre. Resolver isso só não havendo mais ricos e pobres.
Na minha opinião, o que resolve é transporte público de massa, permitindo que o longe se torne perto.

Gostei do protesto, Carol. Beijo! Vitor

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