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A Infância na Ponta dos Pés


Hoje vi uma cena no metrô que me deixou intrigada, e que, de certa forma, me incomodou. Estava eu no meu canto no vagão lendo uma revista a caminho do Largo do Machado. Até que umas 3, 4 estações antes, entra uma senhora e sua neta. Até aí, nada demais, até que meu olhar um tanto curioso me fez observar aquela menininha.

A princípio, tudo normal. Menina bonita, por volta dos 9 anos. Imaginei que estava curtindo uma bela manhã na companhia da avó, já que as aulas ainda não começaram. De repente um celular toca. Era o dela, menininha de 9 anos. Ela, rapidamente, retira o aparelho da bolsa e atende. Parecia ser sua mãe do outro lado. E foi neste momento, ao observar a cena, que algo me pareceu deslocado.

Primeiramente, o jeito dela de atender o celular. Após retirá-lo da bolsa, abre o flip do aparelho, joga seus cabelos soltos um pouco para trás, tirando-os de seus ouvidos, e atende a mãe com um tom adulto em sua voz. E desta maneira flui toda a conversa. Mas não era só sua voz, também havia os trejeitos, a forma de se portar, o olhar direcionado para o nada enquanto ouvia sua mãe, a posição da perna. Enquanto eu, quase 24 anos, gaguejo e me encolho toda ao atender o celular, refletindo o eterno desconforto que tenho com telefones, ficando sem saber o que fazer com as mãos e olhar, esta menina tinha postura, atitude, segurança. E só 9 anos.

Ela desliga o celular, o qual domina com toda a facilidade comum que as crianças de hoje tem em lidar com tecnologia. Seu celular era roxo, combinando com a camisa que vestia. Um roxo bonito, que deixaria minha amiga Érica, fã da cor, com muita inveja. Ela, então, o guarda na bolsa. E aí que me dou conta da bolsa. Não era de pelúcia, de bichinhos, não tinha nem Barbie nem Polly. Era bolsa de adulto, de uma alça só, que, devido ao tamanho da menina, chegava até abaixo da cintura (embora a bolsa nem fosse tão grande). E da bolsa, vou para os pés. A sandália era de um modelo adulto, daqueles que deixam o dedão e mais uns dois dedos a mostra, na ponta. E as unhas do pé estavam cuidadosamente pintadas de vermelho forte, coisa que até hoje não tive coragem de fazer.

Conclui, então, que estava diante de um adulto. Adulto em miniatura. A maquiagem no rosto, com blush e sombra perfeitos, o batom rosado, a postura, a fala. A criança de vestido de flores com laços na cabeça, sandalinha de boneca e jeito um pouco desengonçado, não vi. Aliás, não tenho visto. A geração desses pequenos quer ser grande mais cedo, sua mente e seus gostos não se agüentam nos limites da infância. A minha irmã de 8 anos já se diz uma pré-adolescente. E de certa forma é, pelo menos comparado com a minha.

Mas eis que depois, já de volta a minha leitura, observo de canto de olho alguém se movimentando pra lá e pra cá. Então, novamente curiosa, levanto o meu olhar para ver de onde vem aquela sombra. E vejo a menina, que considerei tão adulta, segurando o ferro do metrô, uma hora com uma mão, uma hora com a outra. E antes de trocar, marcava o movimento com o toque da ponta de um dos pés no chão. Parecia dançar. E acredito que dançava, pois sua boca rosada de batom balbuciava algo que parecia música. E ela, ignorando os olhares, dançava. Brincava.

E naquele momento, de certa forma, respirei aliviada. A criança ainda estava lá.

Comentários

érica disse…
Adorei o texto. Vc tá cada vez melhor nessa coisa de escrever, Caiol. :)
Adorei a referência à minha pessoa também, claro. :p

Quanto aos adultos em miniatura... Eu tava lendo outro dia que a infância é uma criação recente, sabia? Data mais ou menos da Revolução Francesa. Na Idade Média, a criança era considerada mesmo um adulto em miniatura. E assim que pudesse pegar na enxada já começava a trabalhar. Aliás, todo mundo tem na cabeça aquelas princesinhas européias casando aos 12 anos, né?
Se a infância nasceu com a Revolução Francesa, ela vai morrer, sem dúvida, com a TV e a Internet. As crianças hoje são muito mais bem informadas do que antigamente, e informação, nesta nossa sociedade contemporânea, é tudo. Tudo mesmo.
Confesso que isso não me agrada, mas vá lá saber quem é que tá certo de verdade...
Anônimo disse…
Sobre adultos em miniatura, eu ia fazer um comentário parecido com a Kika, então só tenho a acrescentar que crianças são "máquinas" de aprender e imitar. Tudo o que a gente aprende quando criança (ler, escrever, contar, estações do ano, meses, dias da semana) é mto mais dificil de esquecer. Por isso que a criança que já atende o celular desde essa idade, imitando a mãe, já tem tanta desenvoltura, enquanto a gente ainda "escorrega".

Me lembrou o filme "Uma grande menina" (ou qlqr nome desses). Um filme com a Dakota Fanning antes de ela fazer "Amigo Oculto".

Texto mto bem escrito aliás, uma sequencia que não dá para parar de ler, guardando mistérios, soltando a temática aos poucos, conclusão precisa.

Beijo!

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