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Bofetadas e Catarse em Horário Nobre

Não é de hoje que as novelas, principalmente as das 20h (ou 21h, embora o antigo horário ainda seja a referência em nossas cabeças), têm se repetido muito. Faz tempo que não acompanho uma capítulo a capítulo, mas também é impossível não saber o que está acontecendo: romances, traições, culturas diferentes, viagens caras e acessíveis (mundo incrível, não?), abordagem de algum problema social, entre outros temas frequentes. Mas eu tenho notado que uma característica tem conquistado um espaço bom e esperado pelo público: o espancamento.

Lembro-me de Celebridades, com a Maria Clara Diniz (Malu Mader) e Laura (Cláudia Abreu), inimigas mortais que viviam se enfrentando, onde a mocinha (a produtora de shows Maria Clara que de forma, digamos, muito "natural", trazia para o Brasil uma estrela internacional por semana) era vitima de toda a inveja e maldades da vilã Laura, que queria ter o reconhecimento de "musa inspiradora" de uma música, que não me recordo de ter ouvido durante a novela. Enfim, a crueldade da vilã foi tamanha, que em um determinado momento não tinha jeito, o público exigia alguma reação da Maria Clara e punição à moça-vilã pelos atos bárbaros. E esse dia é anunciado. Todos se animam, leem as revistas, acompanham os entendidos de novela e assistem prazerozamente ao grande evento: o capítulo onde Maria Clara desce do salto e cai de pau em cima da Laura. Que cena! As duas rolam no chão, e é tapa na cara de cá, tapa na cara de lá. Até que no final, todos somos vingados e nos encontramos aliviados pelo tão esperado dia da "justiça".


E de lá pra cá eu tenho observado como esse tipo de momento é aguardado pelo espectador e já é obrigatório em alguma parte da trama. É o momento antes do "final feliz" que o espectador pode respirar pelo seu mocinho e ficar bem por ele ter sido esperto em pelo menos um capítulo da novela. De lá pra cá, alguns malvados apanharam feio: se não me engano, esta cena esteve presente entre Flora e Donatella (A Favorita), assim como na atual novela, Caminho das Índias, onde a Maya já teve oportunidade de dar uns tabefes na Suria (sei lá como se escreve) e, agora, a Melissa vingará o "caro amigo telespectador" com tapas em Ivone. Are Baba!

Não acompanho novela faz tempo, e cada vez que eu vejo um dia, fico feliz em não sentir a necessidade de ligar a tv às 21h quando chego em casa. Todos os dias saímos e voltamos preocupados com o que nos pode acontecer, com toda a violência que estamos sujeitos a passar nas ruas. Violências morais e físicas, que, no final, acho que têm a mesma intensidade. A sociedade da qual fazemos parte briga no trânsito, perde a paciência com um erro do outro, atira para matar em criança que brinca (ou que perturbe, que seja... não justifica) na feira do bairro. E quando chega em casa para finalmente descansar, assiste (muitas vezes alegremente e satisfeito) a uma cena de espancamento.

Me questiono o que é reflexo do que, ou se até essa idéia de reflexo existe de verdade. Mas me assusta, particularmente, em ver tanta alegria e expectativa em cenas de violência. Ou em ver como estas cenas estão cada vez mais presentes em nosso lazer. Aguardamos um momento de vingança como se essa fosse a solução. E, mesmo que em pequenas proporções (ou não?), estamos cada vez mais despertando e estimulando um ódio e uma violência que não irá se resolver com um olho roxo da Ivone. A catarse acontece e é desejada, mas que os elementos não sejam tão gratuitos. E também sei que existe um lógica dos próprios meios de comunicação na hora de abordar certos temas. De maneira alguma estou acusando o telespectador de ser um sádico responsável por toda crueldade da tv. Mas há um momento que devemos pensar nessas lógicas e até onde nós somos "iscados" para fazermos parte dela.

Queria muito estudar essas questões para falar com mais propriedade sobre o assunto. Aqui é apenas uma opinião de uma leiga, se vocês tem mais base para opinar, por favor, fiquem à vontade. Mas só pra registrar: Glorinha, eu vou passar o espancamento dessa vez, ok?

Comentários

Anônimo disse…
Buh!

Hoje eu entreouvi (estava na cozinha) as expressões "hoje vai ser ótimo", "porrada" e "novela" na mesma frase. Mulheres falando.

Fui obrigado a interromper o diálogo e dizer "lamentável", e recebi como resposta exatamente o que vc falou. É a hora da catarse do espectador.

A novela tem uma técnica curiosa, pois é um programa muito longo e que passa todo dia. E agora o recurso que usam e fazer vários mini-clímaxes (?), abandonado o velho modelo "tudo acontece no último episódio".

Sad but true.

Mas para mim a culpa é do Tarantino, que inaugurou a violência gratuita nos meios "cult-bacaninha".

Saudades de tu!

Beijos
érica disse…
Ao contrário do Vitor, não acho que tudo seja culpa do Tarantino. Mas só porque eu gosto dos filmes dele, ainda mais se tiver amendoim e cervejinha, bem no estilo homem-casado-com-30-e-poucos-de-idade-ficando-barrigudo.
Acho que a violência na arte é aceitável e até desejável. O complicado é quando essa tal manifestação de arte se pínta como realista, e toda a coisa se mistura. Vida real e arte = mistura perigosa.
Adorei seu texto, skolzits. Vc é a minha personal Martha Medeiros.

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