
Hoje, 4 de outubro, meu pai estava assistindo ao Globo Esporte (é esse o que passa todo domingo na Globo?) que, é claro, não cansava de bajular nosso país e povo perfeitos e superiores em simpatia e paixão, devido à vitória na escolha da sede para as Olimpíadas de 2016. Apesar de não ligar muito para esportes - e muito menos para programas esportivos dominicais - parei para assistir ao vídeo feito por Fernando Meirelles, que ainda não tinha visto (e que, confesso, estava muito curiosa para assistir).
Não vou aqui entrar na questão se a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas foi boa ou ruim. Tenho sentimentos mistos sobre isso, apesar de ser muito forte a noção de despreparo dessa política corrupta e sangue-suga de dinheiro público, que festeja a vinda de milhões que infelizmente tem todas as chances de irem para o bolso de "alguéns", assim como serem subutilizados.
Vou falar de uma reportagem que veio após todo o envolvimento emocional das Olimpíadas. Fizeram uma reportagem sobre o trabalho social desenvolvido pelo judoca Flávio Canto na Rocinha, o Projeto Reação (o link da reportagem está no final do texto). Este atende cerca de 800 jovens na favela, oferecendo ainda atividades de reforço escolar. Até aí, tudo bem. Não entendo tanto da realidade das favelas, do que é realmente bom e da melhor forma de ser feito, mas acredito que atividades desse tipo desenvolvem potencialidades podem até ser fonte de perspectivas para o futuro.
Entretanto, a reportagem global não tinha como objetivo somente apresentar o projeto. Queria, sim, apresentar a história de um de seus alunos, o Arthur, e seu "padrinho" internacional. Resumindo, é assim: o jornalista do Daily Mirror, Oliver Holt, visitou a favela carioca. Lá, conheceu o trabalho do Flávio e alguns de seus alunos. Não lembro com detalhes o meio da reportagem (e o vídeo demora horrores para carregar), mas só sei que no final das contas, Oliver fica espantado com a condição social daquelas crianças. Perguntou ao judoca qual o valor (sim, o valor! $ ! Realmente, Debord. Tudo virou mercadoria. Até a solidariedade é tratada nesse nível. E somente neste.) e a melhor forma de conseguir ajudar a vida de um dos moradores. Aí é que começa a infeliz abordagem da reportagem: Flávio responde que a melhor forma de se mudar a vida de alguém é com um ensino de qualidade. E para se conseguir melhores condições, o jeito era ajudar um de seus alunos a estudar em uma escola particular, pois lá o ensino tem mais qualidade. Sendo assim, Flávio escolhe Arthur, e Oliver e o jornal passam a bancar a educação deste menino em uma escola particular. Era a realização de um sonho de Arthur e sua família, todos explodiram em alegria e emoção. E, desta forma, a reportagem só faltava dizer que "viveram felizes para sempre".
Estou ciente da situação da educação no Brasil. Há muitos defeitos, problemas, principalmente causados por falta de investimento e responsabilidade do poder público, que paga mal os professores e que, ainda por cima, dá condições precárias para o trabalho. Entretanto, ainda há vontade transformadora dentro da classe. Professores vão lutar pelos di
reitos de melhores condições de salário e educação pública, como aconteceu recentemente na Alerj, onde foram agredidos e ofendidos com uma arma apontada para eles (uma das cenas mais absurdas e agressivas que vi recentemente). Há aqueles que se desdobram nas condições oferecidas para oferecer um trabalho digno e responsável. Além do mais, investimos nessa educação pública através dos impostos pagos, e que os governantes fazem o favor, na cara de pau, de não devolverem à população. E a Globo, claramente explicitando sua ideologia por trás da reportagem, praticamente vem dizer que a solução para um futuro melhor é a educação privada. POR FAVOR! Isso me soou tão agressivo aos ouvidos, atingindo também meu pai, professor e diretor de escola pública, que via a reportagem balançando a cabeça, na tentativa de negar o que estava vendo e ouvindo. A população tem DIREITO a uma educação pública e de qualidade. E o governo, o DEVER de ofecê-la. O que deve ser disseminado é que a luta se dá em forçar e garantir esse DIREITO, principalmente neste momento em que os vitoriosos governantes do Rio de Janeiro, ao sucatear a escola pública, já planejam a privatização da mesma através das OSs (Organizações Sociais). Mas, ao contrário, este "meio de comunicação" (será este e o governo afins? Hum...) dissemina a ilusão do ensino privado, sendo este a solução e o futuro, que a maioria vai ficar sonhando frustrada, pois provavelmente não terá condições de atingi-lo.
Não sei se sou hipócrita em falar isso, pois sou fruto do sistema privado (embora curse agora faculdade pública). Mas por isso mesmo, me sinto à vontade em falar que lá dentro não existe padrão de ensino nenhum. Estudei em escola de classe média (atendendo muitas vezes à alta também) e o que vi muitas vezes foram alunos mal educados, preconceituosos, de pensamento pequeno e selvagens (destruiam de lixeira a ar condicionado, chegando a jogar lixo na casa vizinha). O ensino era aquele bitolado, moldado pelo mundo do vestibular, esquecendo o fator humano. Havia professores que valiam muito a pena, como o meu excelente professor de História, que lançava e estimulava em suas aulas um pensamento mais crítico e humano, mas que também estava preso às amarras pedagógicas da instituição. Ou seja, escola privada NÃO É PADRÃO DE EDUCAÇÃO. Isso é uma ilusão que se quer criar na população, seguindo a lógica louca capitalista. Prova dessa ilusão é que todos os professores que conheço e que tem experiência em escolas públicas e privadas, preferem muito mais a primeira, tanto pelo trabalho desenvolvido quanto pelos próprios alunos.
Este fato também me fez retomar uma questão que há pouco martelava na minha cabeça, após ver a (sempre) triste capa da revista Veja: que meios de comunicação nos são oferecidos? Que qualidade é essa? É um absurdo pensar que este formador de opinião entra na maioria das casas brasileiras com esta postura pequena. É urgente a necessidade de termos outras alternativas de comunicação acessíveis e baratas para nós, povo. Precisamos de outras fontes, de novos olhares, para que seja possível desenvolvermos um pensamento crítico diante dos fatos que nos são apresentados. Esse poder quase homogêneo gera uma ignorância (no sentido de ignorar mesmo) tão grande e que é difícil de ser quebrada. A população precisa de alternativas, assim como dela é preciso que brote AS alternativas.
Uma das minhas maiores angústias é não ter conhecimento bastante pra falar e exprimir minha opinião sobre essas situações com bases mais sólidas. Fico com medo de falar bobagens e argumentar de forma fraca sobre o assunto. Mas essa reportagem pra mim representou um péssimo início de domingo (que depois, distante da tv, acabou melhorando 100%) e algo surreal, inacreditável. É isso que uma CONCESSÃO PÚBLICA nos oferece. É esse tipo de pensamento que ajuda a formar a opinião pública. São essas reportagens que matam aos poucos a capacidade de crescimento do país. O rosto do meu pai, diretor do município, após ver a reportagem, resumiu toda a tristeza que senti. Sim, é triste quando desvalorizam descaradamente os nossos DIREITOS.
Enfim. Viva o Rio 2016.
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Comentários
Concordo com sua opinião, visitei algumas escolas públicas aqui em Pernambuco e pude constatar o poder de alienação dos meios de comunicação mais "populares". A situação é emergêncial.
Escreves muito bem, Paz.
O debate sobre educação é longo, mas na minha opinião ele começa com a inversão do foco do sistema público, voltado para o ensino superior. Nós dois somos testemunhas disso, classe média que sai da escola fundamental e média privada para a superior pública.
Ótimo texto. Não tenha medo de expor suas idéias, pois se alguém contextá-las será melhor ainda, pois só assim se pode avançar e aprofundar o nosso próprio pensamento.
Beijo saudoso!