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São João del Rei

A primeira coisa que chamou sua atenção foi o cheiro de interior. Aroma de terra, mato e tranquilidade, tudo junto, desde a bela estrada de curvas maliciosas, que embalavam seus visitantes.

Depois do cheiro, vem a trilha sonora. Um encantador silêncio que tomava seu corpo e alma, mesmo com todos os barulhos das pessoas circulando e dos carros que desafiavam o pouco espaço da cidade. O ritmo lento, a calma com que o sol queimava, como se não tivesse pressa, trazia-lhe o silêncio.

E com isso, veio a estranha sensação de lar. Os sorrisos a recebiam em cada porta, assim como o falar demorado, arrastado, esticado, como se tivesse preguiça. As pequenas gentilezas banhavam seu olhar, enquanto ela os observava, como alguém que gostaria de reaprender a ser humano.

Um sentimento de nostalgia de algo que não viveu a encontrava em cada esquina de chão de paralelepípedo. Era o passado que desenhava as casas, as lojas, as histórias e as badaladas dos 14 sinos, que levavam a cidade como um maestro leva a sua orquestra. Três badaladas, quatro baladalas, cinco badaladas... E assim mantinha-se o controle do tempo, logo em um lugar onde o tempo não tinha pressa.

As madrugadas eram frias e desafiadoras, mas a encantaram pois poderiam ser só as duas. Uma protegeria a outra, quando se sentissem só e com frio. Não há perigos, a não ser os perigos internos. Há é calma, andar lento, uma pessoa aqui e outra acolá. Mas perigo? Não...

Encontrou lá novos significados: o "já já eu trago" pode demorar 40 minutos. O "logo ali" pode render uma longa caminhada. Mas não tinha importância. Tudo era encanto, era espera, era paciência. Tudo a desafiava sem ferir, como algo que instiga, mas fazendo carinho.

A cidade a proporcionou vida. Foram encontros de longe, de perto, de vista, de abraços, de conversa, de risos. A sutileza e a intensidade a tocaram de uma só vez, explodindo em tão pouco tempo novidades para um ano todo.

Mostrou-lhe também quem ela era, a necessidade de se auto conhecer, com calma, mas com urgência. Falar com mais pessoas, ler mais livros, discutir sobre mais assuntos, se engajar em algo, ter razões para que tudo não passe em branco. O repertório deve ser construído, e pode ser que ele tenha começado lá.

De lá ficaram lembranças. Do cheiro intenso às trilhas desafiadoras; da vida interior às madrugadas nostálgicas. Tudo se mistura e cai como pétalas em seus pensamentos, que tentam remontar as flores que já se foram, mas que certamente ainda exalam seu cheiro. E assim ela espera que continue. Por muito tempo.

Comentários

. carolina . disse…
Sim, a madrugada é uma amiga querida...
érica disse…
Lindo, Carol! Putz... lindo mesmo. Fiz uma viagem mental das mais interessantes agora.
:)
érica disse…
Perdoa essa sua amiga complicada por ser uma puta escrota que não merece os amigos maravilhosos que tem?
:)
anaenne disse…
Carol, o melhor de ter um blog, penso eu, é receber visitas e coments como a sua/o seu, tão comoventes, e ainda oferecer a oportunidade de conhecer blogs tão interessantes quanto o seu. Adorei seus escritos, tb amo Boca Livre e Sá e Guará, amo essas cidades mineiras, talvez por ter passado a infância no interior e compreender bem que tudo é "encanto, espera, paciência". Tb me identifiquei com seus escritos, sempre q der passarei por aqui e vou colocar um link pro seu blog lá no Baiúca. E o subtítulo do seu blog poderia, claramente, ser o meu lema relacionado ao meu escrever: exerço minha coragem, desafio meus medos. :) Viu, temos mais coisa ainda em comum. Adorei a visita lá, volte sempre! e obrigada pelo comentário.
Juliana Veiga disse…
Lindo texto!!!
Pena não ter podido compartilhar desses momentos, mas tive uma sensação parecida no Seminário da UFRJ, tirando é claro, o "é logo ali", e o cheiro de cidade do interior, tão gostoso..

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